Multa do Bafômetro: Quando cabe recurso?

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Carlos Eduardo Dias Djamdjian - OAB/SP 298.481

Advogado especialista em Direito de Trânsito e Transportes com mais de 10 anos de experiência na área, Pós Graduado em Direito de Trânsito, Presidente da Comissão de Trânsito e Transportes OAB/SP - Santana (2019-2022) e CEO do escritório DJM Advogados.

Multa do Bafômetro: Quando cabe recurso?

Sumário

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A fiscalização da chamada “Lei Seca” se tornou uma das principais ferramentas de combate à embriaguez ao volante no Brasil. O objetivo é legítimo: reduzir acidentes, mortes e comportamentos perigosos no trânsito. Porém, existe um ponto que muitas pessoas ignoram — o agente de trânsito também precisa seguir rigorosamente a lei.

No direito administrativo, não basta existir suspeita. O procedimento precisa ser legal, técnico e documentado.

Isso significa que uma multa de bafômetro aplicada sem observância dos protocolos previstos no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), nas resoluções do CONTRAN e nas normas técnicas do INMETRO pode ser anulada administrativamente ou judicialmente.

E aqui está o detalhe mais importante:

A maioria dos recursos não é baseada na alegação de que o motorista “não bebeu”, mas sim na demonstração de irregularidades formais e técnicas durante a abordagem.

O que a lei prevê sobre o bafômetro?

O CTB prevê duas situações diferentes:

1. Dirigir sob influência de álcool — Artigo 165 do CTB

Quando há comprovação de álcool por:

  • teste do etilômetro;
  • exame clínico;
  • exame de sangue;
  • sinais de alteração psicomotora.

A penalidade inclui:

  • multa gravíssima multiplicada por 10;
  • suspensão da CNH por 12 meses;
  • retenção do veículo;
  • possível encaminhamento criminal dependendo da quantidade detectada.

A Resolução nº 432 do CONTRAN estabelece que a infração administrativa pode ser caracterizada por teste igual ou superior a 0,05 mg/L no ar alveolar expirado. (Serviços e Informações do Brasil)

2. Recusa ao bafômetro — Artigo 165-A do CTB

Mesmo sem soprar o aparelho, o condutor pode sofrer penalidades pela recusa.

Hoje, a legislação trata a recusa como infração autônoma, com praticamente as mesmas consequências administrativas:

  • multa de aproximadamente R$ 2.934,70;
  • suspensão da CNH;
  • curso de reciclagem.

Porém, isso não elimina a necessidade de o agente cumprir o procedimento correto. (JusBrasil)

O grande erro das pessoas ao recorrer

Muitos motoristas tentam se defender dizendo:

“Eu não estava bêbado.”

Mas juridicamente, isso normalmente não basta.

O recurso técnico precisa demonstrar:

  • falha no auto de infração;
  • ausência de elementos obrigatórios;
  • erro de preenchimento;
  • aparelho irregular;
  • ausência de provas;
  • violação do devido processo administrativo;
  • descumprimento da Resolução 432 do CONTRAN;
  • falhas na cadeia de fiscalização.

É justamente aqui que muitos autos acabam vulneráveis.

O agente de trânsito é obrigado a seguir protocolo

A fiscalização da Lei Seca não pode acontecer “de qualquer jeito”.

O artigo 8º da Resolução 432/2013 do CONTRAN determina quais informações obrigatórias devem constar no auto de infração. (Serviços e Informações do Brasil)

Entre elas:

  • marca do etilômetro;
  • modelo do aparelho;
  • número de série;
  • número do teste;
  • medição realizada;
  • valor considerado;
  • limite regulamentado;
  • identificação de testemunhas quando houver;
  • informações sobre imagens, vídeos ou outros meios de prova.

Se esses elementos estiverem ausentes ou incorretos, abre-se espaço para questionamento jurídico.

A importância da aferição do aparelho

Esse é um dos pontos mais importantes.

O bafômetro precisa:

  • estar regularizado;
  • possuir certificação válida;
  • passar por verificação periódica do INMETRO;
  • estar dentro do prazo de aferição.

Sem isso, a confiabilidade técnica da medição pode ser contestada.

Em muitos recursos, advogados verificam:

  • validade da calibração;
  • certificado metrológico;
  • regularidade do equipamento;
  • compatibilidade dos dados do aparelho com o auto.

Inclusive, discussões jurídicas recentes destacam nulidades envolvendo etilômetros sem verificação válida. (Reddit)

Quando a abordagem pode gerar nulidade

Existem situações extremamente comuns que podem comprometer toda a autuação.

Erro de local

Um endereço incorreto no auto pode comprometer a validade do procedimento.

Isso parece detalhe pequeno, mas juridicamente importa muito.

Há casos relatados em discussões jurídicas onde o endereço registrado no auto sequer correspondia ao local real da abordagem. (Reddit)

Ausência de sinais psicomotores descritos

Quando não há teste do bafômetro efetivo, o agente normalmente utiliza sinais de alteração psicomotora.

Exemplo:

  • odor etílico;
  • fala desconexa;
  • olhos vermelhos;
  • agressividade;
  • dificuldade motora.

Mas isso precisa ser registrado adequadamente.

A simples afirmação genérica de “aparente embriaguez” pode ser insuficiente dependendo do caso concreto.

A própria Resolução 432 exige descrição objetiva desses sinais. (Serviços e Informações do Brasil)

Falta de informação sobre a recusa

Na recusa ao bafômetro, muitos recursos alegam que:

  • o motorista não foi devidamente informado;
  • não houve ciência das consequências;
  • o procedimento foi conduzido sem formalidade adequada.

Debates jurídicos recentes apontam que a ausência desse registro pode enfraquecer a validade da autuação. (Reddit)

Nem toda multa é automaticamente válida

Existe um mito popular de que:

“Recusar o bafômetro significa perder automaticamente.”

Isso não é verdade.

A infração existe na lei, mas o processo administrativo continua sujeito aos princípios constitucionais:

  • legalidade;
  • ampla defesa;
  • contraditório;
  • devido processo legal.

Inclusive, existem discussões jurídicas antigas sobre possíveis conflitos entre a penalidade da recusa e o princípio da não autoincriminação. (Reddit)

Embora a jurisprudência majoritária atualmente mantenha a validade do artigo 165-A, isso não impede recursos por falhas formais e técnicas.

Como funciona o recurso?

O procedimento normalmente ocorre em três etapas:

Defesa Prévia

Aqui são analisados:

  • erros formais;
  • inconsistências no auto;
  • ausência de requisitos obrigatórios;
  • nulidades administrativas.

Recurso à JARI

Caso a defesa prévia seja negada, o recurso segue para a Junta Administrativa de Recursos de Infrações.

Nesta fase, argumentos técnicos ganham ainda mais importância.

CETRAN

Última instância administrativa estadual.

Dependendo do caso, ainda pode existir discussão judicial posterior.

O que pode fortalecer um recurso?

Alguns elementos frequentemente utilizados:

  • cópia integral do auto de infração;
  • certificado do etilômetro;
  • verificação de aferição do INMETRO;
  • vídeos da abordagem;
  • testemunhas;
  • inconsistências documentais;
  • divergências de horário;
  • ausência de assinatura;
  • ausência de notificação válida;
  • erros de enquadramento legal.

Muitos motoristas perdem a chance de defesa simplesmente porque pagam a multa imediatamente sem analisar o procedimento.

A fiscalização precisa respeitar a própria lei

A Lei Seca existe para proteger vidas.

Mas justamente por ser uma medida severa, ela exige rigor técnico absoluto.

Quando o Estado pune alguém:

  • precisa provar;
  • precisa documentar;
  • precisa seguir protocolo;
  • precisa agir dentro da legalidade.

Do contrário, o auto pode se tornar vulnerável.

No direito de trânsito, detalhes administrativos fazem enorme diferença.

Uma informação ausente, um aparelho irregular, uma inconsistência documental ou um procedimento inadequado podem comprometer toda a validade da autuação.

E é exatamente por isso que recursos técnicos continuam sendo uma ferramenta legítima de defesa dentro do sistema jurídico brasileiro.

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