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Trânsito brasileiro: Como podemos melhorar?

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Carlos Eduardo Dias Djamdjian - OAB/SP 298.481

Advogado especialista em Direito de Trânsito e Transportes com mais de 10 anos de experiência na área, Pós Graduado em Direito de Trânsito, Presidente da Comissão de Trânsito e Transportes OAB/SP - Santana (2019-2022) e CEO do escritório DJM Advogados.

Trânsito brasileiro: Como podemos melhorar?

Sumário

Mulher dirigindo sorridente

Excesso de velocidade, ultrapassagens perigosas, álcool ao volante e desatenção continuam entre os principais desafios das estradas brasileiras. Apesar de avanços na fiscalização e de reduções recentes em alguns indicadores, o país ainda precisa transformar o respeito às regras em hábito. A segurança no trânsito depende de motoristas responsáveis, fiscalização eficiente e vias preparadas para proteger vidas.

1. O trânsito brasileiro é um problema de comportamento e de estrutura

O trânsito brasileiro reúne milhões de pessoas todos os dias: trabalhadores, estudantes, motociclistas, ciclistas, pedestres, motoristas profissionais e famílias que viajam pelas rodovias.

Essa circulação é essencial para a economia e para a vida em sociedade. O problema começa quando a pressa, a imprudência e o desrespeito às regras passam a ser tratados como comportamentos normais.

É comum ouvir frases como:

“É só um pouquinho acima da velocidade.”

“Dá para ultrapassar antes de o outro carro chegar.”

“Vou olhar o celular rapidinho.”

“Bebi pouco, consigo dirigir.”

Essas justificativas revelam uma falha importante: muitos condutores sabem que existe uma regra, mas acreditam que podem abrir uma exceção quando estão com pressa ou quando imaginam que não serão flagrados.

O resultado pode ser grave. Uma decisão de poucos segundos é capaz de provocar uma colisão, ferir pessoas e transformar uma viagem comum em uma tragédia.

Mas seria incorreto colocar toda a responsabilidade exclusivamente no motorista. Uma estrada mal sinalizada, um cruzamento perigoso, a falta de iluminação, a ausência de calçadas e a demora no atendimento de emergência também influenciam a segurança.

O desafio brasileiro, portanto, é combinar responsabilidade individual com fiscalização consistente e infraestrutura adequada.

2. Onde os motoristas brasileiros mais pecam?

Os dados das rodovias federais ajudam a identificar comportamentos que merecem atenção.

Segundo o balanço da Polícia Rodoviária Federal (PRF), em 2025 foram registradas mais de 10 milhões de infrações nas rodovias federais. O excesso de velocidade ficou no topo do levantamento, seguido por outras irregularidades relacionadas à circulação e à segurança.

O número de autuações não representa, necessariamente, a quantidade de motoristas diferentes: uma mesma pessoa pode cometer várias infrações. Ainda assim, os dados revelam a dimensão do problema.

Excesso de velocidade: o erro mais recorrente

O excesso de velocidade foi a infração mais registrada pela PRF em 2025.

Foram contabilizadas mais de 7,1 milhões de autuações por velocidade acima do limite permitido, incluindo mais de 6,1 milhões de registros de veículos que ultrapassaram o limite em até 20%.

Esse comportamento é perigoso por uma razão simples: quanto maior a velocidade, menor o tempo disponível para reagir e maior a distância necessária para parar o veículo.

Imagine um motorista que trafega em uma avenida movimentada e precisa frear porque um pedestre atravessou a rua. Se estiver acima da velocidade adequada, pode não conseguir parar a tempo.

O problema também aparece nas rodovias. Em uma pista simples, uma velocidade elevada pode transformar uma saída de pista ou uma colisão em um acidente fatal.

Respeitar o limite não é apenas evitar uma multa. É permitir que o veículo tenha condições de responder a uma situação inesperada.

Ultrapassagens perigosas: uma decisão que pode custar vidas

Outro comportamento que merece atenção é a ultrapassagem em local proibido, especialmente quando o motorista invade a faixa contrária em trechos com linha contínua.

A PRF registrou mais de 195 mil infrações desse tipo em 2025.

Em uma rodovia de pista simples, o condutor que ultrapassa sem visibilidade suficiente pode encontrar um veículo vindo na direção oposta. Nesse cenário, a colisão frontal pode ocorrer em poucos segundos.

O erro costuma começar com uma avaliação equivocada: o motorista acredita que terá tempo para completar a manobra, mas não considera corretamente a velocidade dos outros veículos, a distância disponível e as condições da estrada.

Ultrapassar exige visibilidade, espaço e autorização da sinalização. Se qualquer uma dessas condições estiver ausente, a manobra deve ser abandonada.

Álcool ao volante: a fiscalização não substitui a responsabilidade

A combinação de bebida alcoólica e direção continua sendo um dos riscos mais graves do trânsito.

O álcool prejudica a percepção, o tempo de reação, a coordenação e a capacidade de avaliar situações de perigo. O condutor pode acreditar que está bem, embora suas habilidades já estejam comprometidas.

Em 2025, a PRF realizou mais de 3,5 milhões de testes de alcoolemia nas rodovias federais. As ações resultaram em aproximadamente 51 mil infrações e 3,6 mil pessoas detidas por embriaguez, segundo o balanço divulgado pela instituição.

A fiscalização é importante, mas a decisão mais segura continua sendo não dirigir depois de consumir bebida alcoólica.

A orientação vale também para quem acredita que tomou pouco, que está perto de casa ou que consegue dirigir melhor do que outras pessoas. A percepção individual não é uma medida confiável de segurança.

Celular ao volante e falta de atenção

O celular tornou-se uma das maiores fontes de distração no trânsito.

Responder a uma mensagem, olhar uma notificação ou consultar um aplicativo enquanto dirige pode desviar a atenção justamente no momento em que surge um risco.

O problema não se limita ao tempo em que o motorista olha para a tela. A distração também pode reduzir a atenção sobre o que acontece ao redor, dificultando perceber um pedestre, uma frenagem ou uma mudança de faixa.

O uso do celular deve ser evitado durante a condução. Se for necessário consultar uma rota ou responder a uma mensagem, o correto é parar em local seguro antes de fazê-lo.

Falta de cinto de segurança e transporte inadequado

O cinto de segurança é um dos equipamentos mais simples e importantes para reduzir lesões em uma colisão.

Mesmo em trajetos curtos, o motorista e todos os passageiros devem utilizá-lo. Uma colisão pode acontecer perto de casa, em uma rua conhecida ou durante uma viagem de poucos minutos.

Também é necessário transportar crianças conforme as regras específicas de segurança, utilizando os dispositivos adequados à idade, altura e peso, quando exigidos.

A ideia de que o cinto é dispensável em baixa velocidade ou em deslocamentos curtos é um erro. O risco não depende apenas da distância percorrida, mas das condições do trânsito e de situações inesperadas.

3. Onde a fiscalização brasileira apresenta resultados importantes?

A fiscalização é eficiente quando consegue prevenir comportamentos perigosos, identificar infrações, aplicar a legislação corretamente e orientar os condutores.

No Brasil, algumas frentes de atuação merecem destaque.

Lei Seca: fiscalização que ajuda a mudar comportamentos

A Lei Seca, criada em 2008, estabeleceu regras rigorosas para impedir a condução de veículos sob influência de álcool.

Sua importância não está apenas na penalidade aplicada ao motorista flagrado. A presença de operações de fiscalização em vias movimentadas e em períodos de maior risco também pode desestimular a combinação de bebida e direção.

O condutor que sabe que pode ser fiscalizado tem um motivo adicional para não assumir o volante após beber. Mas a fiscalização precisa ser contínua e acompanhada de educação para que a decisão responsável não dependa exclusivamente da possibilidade de receber uma multa.

Em agosto de 2026, o Conselho Nacional de Trânsito aprovou a Resolução 1.031/2026, que atualiza procedimentos de fiscalização relacionados ao álcool e a outras substâncias psicoativas. A regulamentação prevê etapas de triagem, critérios para retestes e procedimentos para registro de sinais de alteração da capacidade psicomotora.

A padronização é relevante porque ajuda a tornar a fiscalização mais clara e tecnicamente consistente. Ao mesmo tempo, o uso de equipamentos e a aplicação das penalidades devem respeitar os procedimentos legais.

Radares e fiscalização de velocidade

Os radares são ferramentas importantes para identificar excesso de velocidade, especialmente em trechos onde a imprudência pode provocar acidentes graves.

A fiscalização eletrônica tem uma vantagem: pode funcionar de maneira contínua, sem depender da presença de um agente em cada ponto da via.

Mas sua eficácia depende de critérios adequados. Os equipamentos precisam estar corretamente instalados, sinalizados conforme as regras aplicáveis e utilizados para promover segurança, não apenas para gerar autuações.

Os locais de fiscalização devem considerar o histórico de sinistros, a velocidade da via, a presença de pedestres, escolas, cruzamentos e outros fatores de risco.

Quando o motorista percebe que a fiscalização está concentrada em pontos perigosos e que as regras são aplicadas de forma consistente, a medida pode contribuir para uma condução mais cuidadosa.

PRF e operações nas rodovias federais

A Polícia Rodoviária Federal atua na fiscalização das rodovias federais, incluindo o combate ao excesso de velocidade, às ultrapassagens perigosas, à condução sob influência de álcool e a outras infrações.

Em 2025, a instituição divulgou a realização de milhões de fiscalizações de veículos e pessoas, além de operações voltadas à prevenção de sinistros.

O trabalho da PRF é especialmente importante em períodos de maior movimento, como feriados prolongados, quando o aumento do fluxo de veículos pode ampliar os riscos.

As operações também permitem identificar problemas recorrentes em determinadas rodovias e orientar ações preventivas.

A presença policial, contudo, precisa estar associada a planejamento e análise de dados. Fiscalizar mais não significa automaticamente fiscalizar melhor. O objetivo deve ser reduzir comportamentos de risco e preservar vidas.

4. O que os números mostram sobre a evolução do trânsito?

Os dados de 2025 indicam uma combinação de avanços e desafios.

Segundo o balanço da PRF divulgado em fevereiro de 2026, as rodovias federais registraram 72.483 sinistros em 2025, contra 73.201 em 2024. O número de mortes caiu de 6.163 para 6.044, enquanto os feridos passaram de 84.587 para 83.483.

Esses números apontam uma redução nos registros das rodovias federais, mas não significam que o problema esteja resolvido.

O mesmo levantamento mostra que as infrações aumentaram e que o excesso de velocidade continuou sendo a irregularidade mais frequente.

Isso revela uma contradição importante: alguns indicadores de sinistros podem melhorar enquanto milhares de condutores continuam desrespeitando as regras.

Também é necessário ter cuidado ao comparar estatísticas de diferentes órgãos. Os números da PRF abrangem as rodovias federais, enquanto os registros de estados e municípios podem utilizar outras bases, períodos e critérios.

Por isso, uma análise nacional completa precisa considerar rodovias federais, estaduais e vias urbanas, além de observar o número de mortes e feridos em relação à população e à quantidade de deslocamentos.

A melhora real não deve ser medida apenas pelo número de multas aplicadas. O principal indicador é a redução de mortes e lesões graves.

5. O que pode melhorar o trânsito brasileiro?

A segurança viária exige medidas concretas e permanentes. Algumas mudanças podem produzir resultados importantes quando são planejadas e acompanhadas.

1. Fiscalização nos locais e horários de maior risco

Os órgãos de trânsito devem utilizar dados de sinistros para identificar pontos críticos, como trechos com colisões frontais, atropelamentos, excesso de velocidade e acidentes envolvendo motocicletas.

A fiscalização precisa priorizar esses locais e horários, em vez de atuar de maneira aleatória.

Isso inclui radares, operações de alcoolemia, fiscalização de ultrapassagens e abordagens de veículos com condições inadequadas de circulação.

2. Educação que ensine consequências reais

Campanhas de trânsito precisam ir além de frases genéricas.

É importante mostrar situações concretas: a distância necessária para frear, o risco de uma colisão frontal, as consequências do uso do celular e a vulnerabilidade de pedestres e motociclistas.

A educação deve começar nas escolas e continuar durante a formação dos condutores. Também precisa alcançar motoristas profissionais e pessoas que utilizam veículos diariamente.

A ideia é construir uma cultura em que respeitar a regra seja uma escolha consciente, não apenas uma reação à fiscalização.

3. Vias mais seguras

Uma estrada segura não depende apenas de placas e multas.

Pistas simples com alto número de colisões frontais podem exigir melhorias como faixas adicionais, barreiras de separação, sinalização adequada e correção de pontos perigosos.

Nas cidades, calçadas acessíveis, travessias bem sinalizadas, iluminação, ciclovias e redução de velocidade em áreas residenciais ajudam a proteger quem não está dentro de um carro.

A infraestrutura deve considerar que pessoas cometem erros. O sistema viário precisa reduzir a chance de que esses erros provoquem mortes.

4. Respeito aos motociclistas, ciclistas e pedestres

Motociclistas e pedestres estão entre os usuários mais vulneráveis do trânsito.

Motoristas de carros e caminhões precisam respeitar a distância lateral, observar os pontos cegos, reduzir a velocidade perto de travessias e evitar mudanças de faixa sem verificar as condições.

Ciclistas também devem ter espaço seguro para circular, e pedestres precisam de travessias acessíveis e protegidas.

A segurança não pode depender de que o usuário mais vulnerável esteja sempre atento e perfeito. Os demais condutores e o poder público também têm responsabilidades.

5. Atendimento rápido após os sinistros

Quando uma colisão acontece, o tempo de atendimento pode fazer diferença na gravidade das consequências.

O país precisa fortalecer os serviços de emergência, melhorar a comunicação entre os órgãos responsáveis e garantir que rodovias e cidades tenham planejamento para o atendimento de ocorrências.

A prevenção é prioritária, mas o atendimento rápido também integra uma política completa de segurança viária.

6. O motorista tem deveres — e também direitos

O Código de Trânsito Brasileiro estabelece deveres para todos os usuários das vias.

O motorista deve respeitar os limites de velocidade, sinalização, regras de ultrapassagem, uso de equipamentos de segurança e condições de circulação.

Também tem o dever de conduzir com atenção e de não colocar em risco pedestres, ciclistas, passageiros ou outros veículos.

Mas o condutor também tem direito a uma fiscalização correta.

Uma autuação deve observar os requisitos legais, os procedimentos aplicáveis e as informações necessárias para que o cidadão possa compreender a infração e exercer sua defesa.

Se houver erro no registro, falta de elementos obrigatórios ou outra irregularidade relevante, o motorista pode avaliar a apresentação de defesa ou recurso administrativo.

Isso não significa que toda multa seja indevida ou que recorrer garanta seu cancelamento. A análise depende dos fatos, dos documentos e das regras aplicáveis.

A responsabilidade no trânsito começa com o respeito às normas, mas também envolve o direito de exigir que o poder público atue dentro da lei.

Conclusão: trânsito seguro não é questão de sorte

O Brasil já dispõe de legislação, órgãos de fiscalização e ferramentas para combater boa parte das condutas perigosas no trânsito.

Os dados das rodovias federais mostram que houve redução de mortes e sinistros em 2025, mas também apontam um volume elevado de infrações, especialmente por excesso de velocidade.

A conclusão é objetiva: o país precisa transformar a fiscalização e a educação em uma mudança permanente de comportamento.

Motoristas devem abandonar a ideia de que pequenas imprudências são inofensivas. O poder público precisa fiscalizar com consistência, corrigir vias perigosas e prestar contas dos resultados. Empresas e profissionais do transporte devem organizar suas atividades sem colocar a vida dos trabalhadores e dos demais usuários em risco.

Cada condutor tem uma parcela de responsabilidade. Cada órgão de trânsito também.

Um trânsito melhor não é aquele em que existem mais multas, mas aquele em que as pessoas conseguem chegar ao destino sem perder a vida ou a saúde no caminho.


Referências para consulta

Artigo informativo. As regras de trânsito devem ser consultadas na legislação vigente e nos canais oficiais dos órgãos competentes.

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Dr. Eduardo Dias Djamdjian de terno azul e fundo cinza

Carlos Eduardo Dias Djamdjian - OAB/SP 298.481

Advogado especialista em Direito de Trânsito e Transportes com mais de 10 anos de experiência na área, Pós Graduado em Direito de Trânsito, Presidente da Comissão de Trânsito e Transportes OAB/SP - Santana (2019-2022) e CEO do escritório DJM Advogados.

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